Era uma manhã fria, o corpo cansado da viagem e fazendo um roteiro desconhecido... Só queria chegar logo no meu destino. Caminho apressadamente pra comprar o bilhete do metrô e, ao me aproximar do balcão, o primeiro sinal que o atendente expressa depois do meu bom dia é um olhar vazio, desinteressado. Eu, com meu jeito eternamente interiorano penso: Como as pessoas são tão frias! Cidade grande é isso, quando vou acostumar!
Moço forte, cabelo trançado, bonito o moço! Nada me responde, abaixa a cabeça e se concentra em um pedaço de papel e escreve alguma coisa. Imagino que seja do trabalho. Novamente falo com o moço pra perguntar o preço do bilhete, outra vez uma olhada seca, como quem diz: você tá me atrapalhando! Aponta para o adesivo que mostra o valor e volta para o papel e pra caneta.
Abro a bolsa, pego a grana e coloco no balcão. O moço, escrevendo estava, escrevendo continua. Quanta falta de educação! É só o que passa na minha cabeça. Sem muita paciência falo um MOÇOOOO!! Ele, irritado pega a grana. Enquanto conta o troco, eu que não sou muito curiosa, resolvo observar o que era tão importante naquele bendito papel pra aquele rapaz ser tão mal educado. E quando meus olhos encontram aquelas letras, pequenas e tortas, se enchem de brilho e alegria. A minha curiosidade é interrompida pelas mãos do moço que me passa o troco e o bilhete. Nossos olhares se cruzam e eu suplico um pedido de desculpas com um sorriso tímido, ele abaixa a cabeça e continua a escrita. Saio sem graça e no correr do dia, na lembrança daquele olhar, imploro:
- Desculpa moço! Onde já se viu atrapalhar a escrita de uma carta de amor!
Rio de Janeiro, Julho de 2016
Nanda
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
sábado, 9 de julho de 2016
Não há sequer uma palavra... Sequer uma forma de expurgar o
que aqui dentro me revira e faz as noites calmas virarem tempestades.
Nunca um caminho foi tão largo, tão claro... Que de tanto
sentir, me calo.
Por que pesa sobre minhas mãos esse sentir? Que somente ouso
tocar com os dedos do silêncio. Por que elas não podem fazer
jorrar tudo que aqui dentro escorre? Ser como um rio caudaloso, lento, forte, que se acomoda
nas curvas dos barrancos e desce ao sem
fim.
Por que deita sobre o meu colo um gozar tão leve? que não consigo deleitar, reverberar ensurdecedoramente , como assim
fazem as cigarras nos seus cantos nas
auroras calorentas.
Caminho em um descompasso,
carrego labirintos, piso em medos... e calo. Não jorro, não explodo. Tenho sido tocada
pelo sabor acalentador do inesperado, tenho seus olhos como o cantar da dúvida,
como leves canções que carregam os suspiros que gritam à minha alma.
E cravo silêncios enormes em mim... Não sei o que me falta ou
o que me preenche tanto que nada ressoa.
Desconfio do seu sono profundo, ou da saudade...Nanda
domingo, 5 de junho de 2016
sexta-feira, 4 de março de 2016
sábado, 27 de fevereiro de 2016
Carnaval
Eu quis batuque, confete e serpentinas
mas você não quis no meu samba entrelaçar
e me deixou no meio da folia
como uma quarta-feira de cinzas
silenciosa
vazia
Carregando nos pés os
dias de alegria
quando fui a festa, a folia
em que seu corpo bailou, dançou
eu quis te fazer girar
na malemolência dos meus braços, pernas e suor
mas você quis outro enrredo,
e me deixou um gingar atordoado, cansado
de final de festa, corpo mole, que só deseja parar
Quando, enfim, a festa acabar,
eu serei a ressaca que teu corpo pede, a saliva amarga da
saudade
e serei sempre aquele batuque de carnaval preso no seu olhar
Nanda
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
Há um ano me perguntava: Como seguir com a consciência de que estamos aqui e você já não nos sentir? E depois de um ano, o desespero de não saber como a vida continuaria, de que os dias faria seus percursos, como o rio que continua a desaguar em outro, e em outro até virar mar, já não sufoca tanto. A dor, que não se evapora, começa a se transformar em lembranças. O choro, que nunca caiu na frente da minha mãe, continua sendo afagado pelo silêncio dos desconhecidos nas ruas, na verdade, são para as ruas as minhas confidências diárias de saudades.
Depois de um ano se aprende a lidar com o vazio, sem o barulho da cadeira de rodas, sem as conversas, sem os nossos silêncios na varanda enquanto sentíamos a brisa do cerrado, nosso refugio nos dias mais quentes! Aprende que é nesse vazio que se encontra tudo, onde é refeito, na memória, a existência. É este vazio que me faz seguir, que reflete a existência, sobretudo a minha. E existir é acumular o que o outro é, foi... Depois de um ano, algumas coisas não voltaram para o lugar, nem vão, pois precisam se refazer em outros espaços, de outros modos, pra poder continuar a ser. Hoje, o sentir só me é possível na memória... É onde tenho encontrado a leveza pra compreender que o rio precisa seguir. Mas, alguns sentimentos ainda perturbam... Como entender que: “Quando um pai morre, a gente perde a mãe também”.
Nanda
Depois de um ano se aprende a lidar com o vazio, sem o barulho da cadeira de rodas, sem as conversas, sem os nossos silêncios na varanda enquanto sentíamos a brisa do cerrado, nosso refugio nos dias mais quentes! Aprende que é nesse vazio que se encontra tudo, onde é refeito, na memória, a existência. É este vazio que me faz seguir, que reflete a existência, sobretudo a minha. E existir é acumular o que o outro é, foi... Depois de um ano, algumas coisas não voltaram para o lugar, nem vão, pois precisam se refazer em outros espaços, de outros modos, pra poder continuar a ser. Hoje, o sentir só me é possível na memória... É onde tenho encontrado a leveza pra compreender que o rio precisa seguir. Mas, alguns sentimentos ainda perturbam... Como entender que: “Quando um pai morre, a gente perde a mãe também”.
Nanda
o sol explodia em meu rosto
e o barulho dos carros gritavam nos meus ouvidos como o meu suor deslizava pelo meu corpo
ouvia apenas buzinas, buzinas, buzinas
o mundo parecia não mais falar
queria que tudo mais fosse...
para qualquer lugar
queria só estar em casa ligar a TV e não ver nada...
o suor escorria no meu corpo...
Nanda.
quinta-feira, 30 de julho de 2015
de gripe e sopa
Cai a chuva lá fora
o cheiro do molhado
invade meu nariz.
De cheiro em cheiro
uma memória eu fiz.
Alho fritando na
panela
não é só barulho
e cor,
quando jogo uma
cebola
e a fumacinha começa
a subir
é água nos olhos,
óleo na cara,
óculos embaçados,
computador e música
engordurados...
e o cheiro.
O nariz aflito
implora pelo cheiro
e chora.
Porque fazer sopa
gripada
é cheirar com a
memória!
Nani. 30 de julho de 2015
sexta-feira, 5 de junho de 2015
Naquela esquina, naquela casa,
tinha um pouco do céu nas suas paredes. Um azul límpido cotidianamente passeava
em nossos olhos.
O brilho do sol trazia a quentura
em todos os seus quadrados, e, de nascer em nascer, o calor transbordava e
fazia o interior das gentes dali ser risonhas e fogosas
Nas suas janelas passeavam todas
as formas de vida, e se via e ouvia
tantas histórias, tantos causos, tantos
barulhos... Era vida!
Naquela esquina, com seus dois
pés de são joão, as marias fedorentas vez ou outra fazia dançar aqueles corpos,
era um verdadeiro baile o seu toque, finas patas que trazia fétido odor, bons
bailados e muitos sorrisos.
Em verdade, quase tudo era festa,
o barulho do bater da porta, o ranger da cadeira de rodas, o papagaio eufórico que
girava e gritava nos dias de chuva, o ruído
das panelas no fogão... Naquela esquina, ouvi dizer, crianças não choravam e as
nuvens adoravam foliar com o ar seco que pairava sobre as telhas.
Se chovia, as plantas se esparramavam
de alegria por todo o quintal, se esfriava, a noite do cerrado soprava um vento
bem lento que entrava nas frestas de suas paredes, e se era noite de lua cheia, e ela brilhava
entre as mangueiras alheias, a varanda tinha mais cores que a televisão, e seu povo bem que sorria sob o luar, bem que cantava sobre aquele lar...
A vida ali se mantinha na
infância... Brincava solta na rua.
Naquela esquina, naquela casa, ainda
há paredes azuis, mas cansadas, mutiladas, desbotadas... é de um silêncio que
nem flor brota, é de uma lamúria que nem calor faz...nada lá se faz, só
lágrimas.
Ouvi dizer, que hoje, as crianças
daquela esquina, daquela casa, ainda não
conseguem sorrir, mas tentam rebocar as suas
paredes rachadas...
domingo, 23 de novembro de 2014
sobre livros...vida e o que quiserem...
Sim, eu acho que a
vida cabe em livros. É por isso, que tentamos escrevê-los.
A vida cabe num
verso,
a vida cabe numa
prosa (escrita ou falada)
a vida cabe num
hai-kai.
Sim, a vida cabe em
livros...porque os livros são memórias impressas,
e memórias são
vivências que se escrevem em nosso.... corpo?!
Sim, a vida cabe em
livros, porque eles são escritos, são memórias, são
vivências...são musa (no singular mesmo)! Porque são um
relacionar-se com...(sem par porque é abertura).
A vida cabe em
livros porque são gestos,
cabem num olhar,
são táteis,
cabem num toque
…
…
cabem num sorriso,
num pulsar (como o coração do nosso filho, batendo dentro de nós).
A vida cabe em
livros porque são cheiro ( como de um livro velho...e também do
novo),
a vida é
paladar...e também a memória do gosto (como a do pequi).
A vida é Barriguda,
é suspiro no
sol-quente no areão do Setor da Macambira...
A vida é birra.
A vida é um gole na
água doce,
é o sentar, sábado
de tarde (ouvindo o regue ( é assim que escreve, mesmo!) dos bares
da beira do rio Corrente:
A vida é manha.
E é também um gole
no (não do) vinho.
A vida cabe em
livros, porque escrevo essa página,
porque me escrevem
um filme,
me contam uma
história,
me lêem um livro...
porque eu tiro uma
foto,
porque quis pintar
um quadro,
porque aprendi a
tocar violão (tentei...)
porque ouvi Renato
Russo,
escutei Raul Seixas,
e tirei de ouvido
uma música do The Cranberries...
A vida cabe em
livros porque Malu.
A vida cabe num
tesão (mas sobretudo no gozo),
porque gozar, nadar,
fazer nada e nadiar
a vida é vadiação.
A vida é Aurora,
é refrão, é
allegro
e é azeda como
limão...(melhor que fel)...
É lá si dó
é azul verde
é amarelo e
vermelho... é partitura
a vida é uma
espoleta (na gíria do baiano mesmo).
A vida cabe em
livros...porque livro não é nada além de outro modo de dizer vida.
Porque livros só são livros com os outros (homens mesmo)...
nani 24 de novembro de 2014
nani 24 de novembro de 2014
segunda-feira, 28 de julho de 2014
É tempo de dormência
e do não estar.
O ser, que é estar
no outro, desabita vagarosamente da matéria.
O corpo que, mesmo
não podendo andar, sempre foi livre. Agora, nada mais expressa, virou
silêncio...
E as dores dos dias são as únicas promessas de
vida.
O que resta é entoar
ao movimento das marés, ao gingado e ao bailado dos corpos, as miudezas das
flores e praças do interior que nos transformem em deuses.
Que é para entender
a dor de não saber, como e por que, a vida lentamente vai se desconfigurando
Já que, não basta olhar repetidamente pro céu,
como que implorando, que não cesse esse caminhar... ou buscar abrigo em cada
olhar desconhecido, em cada gota de chuva que vira oração.
Como seguir com a consciência de que estamos
aqui, e você já não nos sentir ?
Nanda
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Pretensos
Hai-kai da insônia
Luz apaga
Corpo acende
Longa madrugada
Hai-kai do assalto
Passa a bolsa
Corre
Só.corro
Hai-kai do sumiço
Você desaparece
Na distância
Eu extravio
Nanda
Luz apaga
Corpo acende
Longa madrugada
Hai-kai do assalto
Passa a bolsa
Corre
Só.corro
Hai-kai do sumiço
Você desaparece
Na distância
Eu extravio
Nanda
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Mar
Homem do sertão, da cor cinza,
sentado na rede faz seu cigarro de palha.
Fim de tarde. Um trago e o silêncio.
Homem pequeno de olhar grande.
Um trago e a mesma respiração.
Pernas cruzadas, chinelos gasto pelo areião.
Um trago, pés gastos pelo tempo, como um balanço, cruzam o vento.
Um trago, a mesma pergunta:
- Como é o mar?
A mesma resposta:
- O mar é lindo! não tem fim!
Um silêncio, a fumaça...
Os olhos perdidos na
imensidão azul.
Homem sertanejo, que todo final de tarde, no ranger vagaroso
dos carros de boi, sente a brisa do mar...
Mais um trago.
Mais um trago.
Nanda
Para meu avô Joaquim, que toda vez que me via perguntava como era o mar
Acho que amo tanto o mar porque o vejo com os olhos dele.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Sr. Jaime
Leidiane já estava
cansada, com a testa molhada colando sua franjinha já grande que
furava seus olhos, quando se sentou na calçada e disse que não ía
mais brincar. Todo mundo ficou chiando porque ela sentou e emburrou a
cara dizendo que dessa vez estava fora.
Depois que todos saíram
da sua frente e voltaram a correr ela logo levou a mão à boca e
voltou a balançar o dente de leite que estava prestes a cair. Ficava
ali, se refrescando numa das raras brisas que sopram durante o verão
de Santa Maria da Vitória, olhando os amigos brincarem.
Quando o coração
voltou a bater normalmente no peito percebeu que estava sentada na
calçada de Sr. Jaime de onde, todas as noites, saía um som
solitário e obscuro de Sax.
A casa de Sr. Jaime de
todas as casas da rua dos Doidos era a casa que mais lhe atraia. Fica
logo abaixo de um poste, ou melhor, fica logo no início da penumbra
que se forma no limiar do reflexo da luz no chão ao redor do poste.
A faixada da casa não ostentava nenhuma tinta. De frete a ela
podia-se ver um pequeno jardim do lado direito, um corredor no lado
esquerdo onde no fundo via-se uma porta que parecia da cozinha. Logo
atrás do jardim, a varando de um quarto que nunca viu a porta
aberta, sequer a janela. A casa de Sr. Jaime é uma casa aberta, mas
que nada mostra. Nunca entrou lá. A casa escondia um universo, e
como tal, misterioso. O lugar onde nossa imaginação não pode
habitar.
E de lá... das
penumbras do corredor da casa de Sr. Jaime, o som lamentoso do Sax. O
som que atravessa todas as memórias da sua infância na Rua dos
Doidos.
Algumas vezes Sr. Jaime
tocava na rua. E o modo como se apresentavam aqueles senhores à
porta de Sr. Jaime, compondo um grupo que tocava todas as noites na
porta de uma das casas da Rua dos Doidos, era sempre reconfortante.
Vendo aqueles senhores com seus linhos e suspensórios e bigodes e
barbas sentia-se sempre tão protegida.
Muitas vezes brincando
na casa de avó, Leidiane ouvia do quarto da frente que abrigava a
antiga barbearia de seu bisavô o som de Sr. Jaime. Adorava ficar
ali, sentada na cadeira de madeira alta e espaçosa, a cadeira de
barbeiro. Olhando no espelho imenso de onde se via também a janela
da rua e os transeuntes que passavam pela calçada. Durante os
sábados enquanto ficava deitada no chão da sala, olhando para o
quarto-barbearia, a porta da rua e a janela, ambas abertas o tempo
todo, sempre esperava uma surpresa. Algum parente da roça que vinha
à cidade para vender na feira, algum amigo que morava na rua de
Baixo, ou no Malvão que aproveitava que desciam para a feira e davam
uma passadinha rápida. Alguém que fosse trazer um prato de feijão
ou um litro de siriguela ou umbu...as visitas do sábado eram sempre
esperadas. Os primos que estudavam em outra escola e não podia ver
durante a semana, o parente afastado, a amiga ou o amigo da outra
rua, o convite da vizinha pra ir no clube, ou na roça, ou no sítio
ou na fazenda e por fim, o domingo com o pai, a mãe e as irmãs
fazer churrasco em alguma beira de rio ali por perto da cidade. Em
vários pontos da estrada o Rio Corrente tem lugar bom pra tomar
banho, até na Prainha, atras do aeroporto, que é perto da cidade,
tem lugar bom... “Será que amanhã, painho vai levar a gente para
tomar banho de rio?” Pensou no exato momento em que o dente voltou
a doer. Conseguiu amolecer um pouco mais. Quem sabe balançando mais
esse dente, ele não cai antes de irmos pro rio...
“- Ohhhhhhhhhhh
Leidiaaaaaaaaaneeeeeeeeee!!” - gritou “mainha” da porta da casa
de sua avó. Foi quando Nani, num susto quase arranca o dente de uma
vez:
“- jáaaa voooou
mainhaaaa!” - não entendia porque mesmo do outro lado da rua, a
mãe precisava gritar tanto pra chamá-la para ir pra casa.
Estava tarde, Sr. Jaime
já estava limpando seu sax com a mesma flanela branca. Não ia mais
tocar naquela noite...
L.C. 31 de janeiro de 2014
sábado, 27 de julho de 2013
Mulher Rendeira
Vozinha ficava na varanda fazendo renda de bilros
E ninguém podia perto chegar! logo falava: aqui não é para
criança, vai brincar!!
De longe eu ficava espiando, tinha medo até de respirar.
Vozinha passava a tarde toda ali
Com mãos fortes pra lida aguentar
Fazia bordado, renda, renda
Eu me cansava e ia brincar
Vozinha ficava ali, fazendo renda, renda, renda
Olê Mulher rendeira!!!!!
Nanda.
Para minha avó Maria
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Ressaca
Ontem foi seu aniversário, e eu fui sambar. Deixei me levar
na corda bamba do passo, ser um compasso para o meu corpo e meus desejos.
Agora, ao abrir os
olhos, e ainda sentir o amargo gosto da cerveja na saliva, e com os pés
pequenos doídos de batucar, lembro que por um dia eu te esqueci. Reviro-me
neste lençol branco, procurando suas
pernas quentes nas minhas e vejo que as deixei ir por um caminho sem volta.
A chuva fina, que entra pela janela, acorda sentimentos
cheios de tormentas que minha cabeça insiste em querer ter. Ontem, no seu
aniversário fez sol, não tive tormentas no meu calcanhar, nem pensei por onde
você deveria estar, se sentado sob o sol que reluzia sua luz, ou a compor o
infinito sobre as ondas do mar.
Eu sambei! E a
madrugada cantava canções de amor, sambei ao meu esquecimento, à inquietude do
meu coração, que como dizia o velho samba:
“ vai sofrer de amor até morrer”. E
no meu chinelo arrastando no chão, repousava a minha saudade.
Ontem foi seu aniversário. Não te catei nos fragmentos do
passado, não escrevi poemas, nem explodi o mundo com minhas dores. Ontem, no
seu aniversário, ao invés de chorar, eu fui sambar.
Nanda
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