quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Sentimento oceânico é prosa








Nesses dias em que o sol está bem amarelo
nas folhas verdes
em que o azul só tem sentido quando olho para o céu
e o mar teima em se fazer reinar
A lembrança do rio que corre
sob a sombra do tamarindeiro
me toma
e o vejo em todo lugar...

Não sinto mais cheiro de nada
só o rio
Não sinto o vento que vem do mar
só o rio
Não entendo mais o que é o brilho
só o rio
Não reconheço outros peixes
só o rio.

Rio
piaba
pescador
lavadeira
barqueiro
Só
o rio.

Todas as turbulências da vida
se afundam na correnteza
do rio
As incertezas se afogam na correnteza
do rio
Tudo se acalma quando algo se torna só meu
meu rio

Meu é o rio que só brilha nos meus olhos
que trago nos ouvidos com o som das barcas a atravessá-lo
que sufoca o meu nariz
ao desentupí-lo com seu cheiro que lhe é tão peculiar

Já sentiu o cheiro do rio?

Mas não é qualquer rio
que tem o cheiro renitente
não é qualquer rio que te toma
e te coloca numa riosia
esse rio que tem sentido
esse rio que dá sentido
é o rio que corre.

Tá, tudo bem, todo rio corre...

Mas nem todo rio

é Rio Corrente!!!!




                                                  nani    24 de outubro de 2012.
 

domingo, 21 de outubro de 2012

hai-kai da gravidez:



barriga grande
 
pés inchados
 
édipo não é rei, é rainha!
 
                                                                  nani 20 de outubro de 2012.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Para a sua saudade


Mesmo no silêncio
eu farejo a saudade
esse bicho meio gente,
meio sentimento
que insiste em perturbar
o roncar da noite

E não vai embora
mesmo com tantas
cores por ai...e por vir
quem disse que a
saudade não pode
ser colorida?

ela é amarelo, ora!
amarelo ouro,
amarelo é sorriso

saudade é outra coisa
tem cheiro de chuva
molhando a terra
barriga rocando com fome

a velha música tocando
e o pôr do sol que só se vê
da janela do décimo primeiro
andar

saudade é coisa que passa
dá e passa, mas fica, por que
mora ao lado da alegria, e tem como
companhia as coisas “findas”...

Nanda

sábado, 25 de fevereiro de 2012

“Universo em Desencanto”



No tempo do desencanto,
Quanto tempo se tem
Prá viver numa única medida,
se não sabemos
ao menos,
se há algum tempo?

Numa vivência
um encantamento.
Numa chuva,
Numa bar,
Numa ilha...
Nada se sustenta
Nem nos aguenta,
nem o mar.

O barco,
nunca mais foi o mesmo.
Os postos,
nunca mais foram os mesmos
Nós,
já não somos mais os mesmos.

Nós não somos mais os mesmos
Porque no abismo que há
entre o encanto e o desencanto
nos perdemos
e nos encontramos.


Porque o encantamento
Foi uma estrela cadente:
realiza sonhos,
mas seu brilho dura apenas um momento
e isso é tudo que se tem.
                                                                              nani          26/06/07
                           

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Quase Hai-kai da saudade




O urubu plaina no céu

sob as nuvens e entre elas

sinto saudades de você.



                                                                             nani   20/02/03

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Fuga às musas.


Quando as Musas bateram à minha porta
Eu não as deixei entrar.

Covardia ou coragem?
Não sei.

Coragem prá me afastar
Covardia prá me encontrar.

Mas me olhei no espelho
E não vi a mim mesma.

Um fantasma,
um vampiro?
Quem tomou o meu lugar?

Sem saber o que sentir
transformei-me em estátua de sal.

Não pude evitar...
o mal,
a dor...

Não consegui não amar.
Não consegui não sofrer.
Não consegui não viver.
Não consegui não abandonar.

Mas me abandonei do mundo
e sofri.
Me abandonei do mundo
e amei.
Me abandonei do mundo
e vivi.

E quem pode dizer o mesmo?


                                             nani   2007.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Dez chamamentos ao amigo



Se te pareço noturna e imperfeita
 
Olha-me de novo. Porque esta noite
 
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
 
E era como se a água
 
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
 
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
 
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
 
Espero
 
Que o teu corpo de água mais fraterno
 
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
 
E mais atento.

                                                    Hilda Hilst.

Pequena invocação à musa. (nani).